As pontes de Santa Rita do sec. XIX

O desenvolvimento de Santa Rita do sec. XIX certamente não seria o mesmo sem a existência de uma ponte para ligar à freguesia a margem esquerda do Sapucaí.

O acesso fazia-se necessário, pois do lado esquerdo do rio passava uma importante estrada, que ligava Pouso Alegre ao Registro de Itajubá. Estrada esta bem conservada para os padrões da época, muito usada pelo estafeta, por viajantes e para o comércio do sul de Minas com a Corte, o porto de Parati e o Vale do Paraíba em São Paulo.

Documentos referentes a estas pontes encontram-se arquivados em Belo Horizonte, no Arquivo Publico Mineiro e em documentos da Assembléia Legislativa. Esses documentos ajudam a contar um pouco de nossa história.

A primeira ponte

A primeira referência, de 1852, fala de uma ponte provida de barreira, na qual se cobrava pedágio dos passantes. O pedágio era cobrado de todos, com preços diferenciados para pessoas a pé, a cavalo, para mulas, carroças e outros. Esta ponte era de propriedade do Cap. João Antonio Dias e de seu irmão Pedro José Dias de Souza.

Os moradores da margem esquerda do rio, que vinham aos domingos e dias santos assistir a missa na freguesia, começaram a se revoltar com a necessidade de pagar o pedágio de ida e volta nessas circunstâncias. A situação levou o juiz de paz suplente da freguesia, Cap. João Vilela de Magalhães, a encaminhar a Assembléia da Província, no início de 1852, uma representação pedindo providências para que tal pedágio não fosse cobrado de quem participasse das missas ou que o Governo Provincial desapropriasse a ponte.

Na lei provincial no. 596, de maio de 1852, o Governo da Província é autorizado a desapropriar a ponte sobre o rio Sapucaí, na freguesia de Santa Rita da Boa Vista.

Texto lei 592, de 1952

Texto lei 596, de 1852

A desapropriação demorou a ser executada e em junho de 1857, em seção plenária na Assembléia da Província, em Ouro Preto, o deputado Lima Duarte contesta a demora: “A 4 ou 5 anos foi à presidência autorizada a fazer a desapropriação dessa ponte, essa autorização, porém não foi logo executada por falta de exames, que se mandaram proceder por engenheiros. Mas agora esses exames já foram feitos, não sei a razão porque ainda não se executou essa lei, não se fazendo a desapropriação.”

O engenheiro responsável pela avaliação foi Júlio Borell, que veio à Santa Rita e descreveu a ponte em seu relatório: “barrotes de madeira de boa qualidade, assoalho e barreira de lei, com pregos de ferro e amarras de cordas.”

Finalmente, em agosto de 1857, por portaria do Governo da Província, a ponte é declarada de utilidade pública, sendo os Dias indenizados em mais de 7 contos de réis.

Mas a ponte continuou com a barreira de pedágio até julho de 1859, quando a lei no. 1013 manda suprimi-la e dar isenção de taxas aos passantes.

Texto lei 1013, de 1859

Texto lei 1013, de 1859

Sete anos depois de desapropriada, em outubro de 1866, a Assembléia da Província, por meio da emenda no. 35, autorizou o Governo Provincial a fazer as reformas necessárias na ponte pública da freguesia de Santa Rita, devido a enchente do mesmo ano que danificou parcialmente a estrutura da ponte.

Curiosamente, Pedro José Dias de Souza também era proprietário de outra ponte com barreira, sobre o rio Sapucaí, na passagem de Ouro Fala, em São Gonçalo do Sapucaí, que também foi desapropriada na mesma época.

A enchente de 1874

Em dezembro de 1874, um despacho oficial informa que na lei de orçamento vigente não há cota especial para reconstrução da ponte sobre o rio Sapucaí, na freguesia de Santa Rita da Boa Vista, mas que a obra é necessária, visto que “uma grande enchente destruiu 3 lances da ponte e os moradores da freguesia se arriscam na travessia do caudaloso rio, fazendo uso dos restos da ponte destruída, e ainda em barcas ou a nado.”

Em agosto de 1875, o juiz de paz Custódio Ribeiro Pereira, encaminha oficio a secretaria do Governo solicitando a reconstrução urgente da ponte.

Trecho do jornal Diário de Minas, de 22 de setembro de 1875

Trecho do jornal Diário de Minas, de 22 de setembro de 1875

A verba para reconstrução nunca foi provisionada no plano de orçamento da Província, ficando o povo da freguesia de Santa Rita por 4 anos se arriscando na travessia do caudaloso Sapucaí. Até que outro morador empreendedor, inspirado nos irmãos Dias, vislumbrou a possibilidade de solucionar o problema e multiplicar seus réis.

Pedágio restabelecido

Em julho de 1877, um pedido feito por Joaquim Ribeiro de Carvalho Junior & Cia, solicita autorização para reconstrução da ponte, que foi destruída pela enchente de 1874. No pedido, Joaquim Ribeiro de Carvalho, alegando a demora do Governo da Província em provisionar verbas para reconstruir a ponte, diz ser ele capaz de executar tal obra, mas pleiteia o direito de cobrar pedágio dos passantes.

Em 1878, após elaboração de uma planta e de orçamento por engenheiro do termo de Itajubá, a autorização para reconstrução é dada, juntamente com o privilégio da cobrança do pedágio.

Segundo almanaque da época, o pedágio rendia a Cia mais de 1 conto de réis por ano, dinheiro suficiente para comprar 20 alqueires de mata virgem na época.

Mais uma desapropriação

A lei no. 2850, de 25 de outubro de 1881, artigo 1º, autoriza o Presidente da Província a despender, dentre outras verbas, 12 contos de réis para a desapropriação da ponte do Sapucaí, de Santa Rita da Boa Vista.

Só em setembro de 1883, a Assembléia da Província, mediante orçamento do engenheiro do termo de São Gonçalo do Sapucaí, provisiona verba pública para a desapropriação da ponte.

Em fevereiro de 1884, a Cia proprietária da ponte recebe 12 contos, 150 mil réis pela desapropriação.

A enchente de 1892 e a estrada de ferro

Em fevereiro de 1893, a câmara municipal de Santa Rita, encaminha ofício ao Secretário da Agricultura, solicitando a reforma ou reconstrução da ponte sobre o Sapucaí, pois uma enchente, nos fins de 1892, quase destruiu a ponte e a mesma só continuará em pé devido aos reparos feitos com verbas dos próprios moradores da cidade.

Com a inauguração da estrada de ferro, em 1894, a já precária ponte passou a ser mais exigida, devido ao grande peso das carroças e carros de boi que iam e vinha da estação ferroviária, alem de grande volume de pedestre que, como diversão, transitavam para a estação todas as vezes que um trem chegava.

Em novembro de 1896 é feito a provisão de verbas, solicitada a 3 anos antes, para reforma da ponte. As obras são executadas somente no fim de 1897 e a ponte é reinaugurada em 18 de dezembro do mesmo.

Remendando a história

Os documentos levantados nos permitem ratificar a propriedade da primeira ponte, do Cap. João Antonio Dias, e retificando a existência de uma sociedade com seu irmão Pedro José Dias de Souza.  Retificamos também a propriedade da ponte de Joaquim Ribeiro de Carvalho Junior e Cia.

Nenhum dos documentos nos permitiu dizer com precisão a localização exata dessas pontes. Mas, já que nenhum deles fala em construção, mas sim em reforma ou reconstrução, podemos presumir que tais pontes, ou tal ponte, eram localizadas nas proximidades de onde fora erguida a antiga ponte de ferro. Documento existente no fórum de Santa Rita, datados de 1872, reforça tal hipótese, dado que este documento trata a atual Rua Silvestre Ferraz já como Rua da Ponte.

Algumas das enchentes históricas da nossa cidade também podem ser datadas: as de 1866, 1874 e 1892 por pouco não levaram a freguesia rio abaixo. Essas inundações eram ditas como extraordinárias por jornais e almanaques da época, relatando nestes que às águas do Sapucaí subiam mais de 6 metros acima de seu nível natural.

Outro ponto interessante é podermos usar esses documentos para datar, aproximadamente, uma das fotos mais antigas da cidade, postada aqui no nosso último artigo, onde podemos ver a porteira usada como pedágio, à cheia do rio Sapucaí, alem da igreja matriz ao fundo, ainda sem torre. A foto é anterior a 1884, já que o pedágio da ponte de Joaquim Ribeiro de Carvalho foi retirado em fevereiro deste

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