Movimentos em prol da criação da freguesia de Santa Rita – 3ª parte

A construção de uma capela, em um terreno doado ao seu patrimônio, era o primeiro impulso para a formação da mais elementar das formas de aglomeração humana: um povoado.

O surgimento do povoado
Os moradores da região próxima a nova capela eram todos residentes em sítios e fazendas. Com a construção do novo templo, o deslocamento necessário para estes fiéis desobrigarem-se de alguns de seus deveres religiosos ficara mais curto, porém nem sempre mais fácil.

A necessidade de transpor, a pé ou a cavalo, as picadas abertas na mata ou trilhas rudimentares, transpor córregos, ou ainda, atravessar o Sapucaí em canoas, fazia da participação da oração do terço, junto ao capelão, ou assistir um culto a Santa Rita na sua capela, um exercício não só de fé, mas também de esforço físico e coragem. Chegar a capela, com toda sua família, vestindo seus melhores trajes, sem estarem cansados ou rotos, era tarefa laboriosa. Ademais, no período de chuvas do verão, ou na seca do inverno, aventarem a possibilidade de chegarem limpos a capela era uma utopía.

A solução para esta situação era adquirir lotes nas proximidades da capela e ali construír uma casa. A edificação proporcionava às famílias merecido descanso, além de propiciar um local para troca de roupas. O local acabava servindo também para encontros com amigos, tratar de negócios e casamentos.

O trato comum era acertar, com os procuradores do patrimônio, aforamentos de lotes ao redor da capela. Os lotes eram negociados do centro do patrimônio para suas bordas. O tesoureiro do patrimônio se responsabilizava por recolher e administrar os pagamentos dos foros. Posteriormente, com a nomeação de um capelão e a escolha de um fabriqueiro, estes assumiram as negociações dos lotes.

Os próprios procuradores foram, certamente, os primeiros a negociarem aforamentos, juntamente com vários outros moradores da região. Às vezes os lotes eram arrendados para culturas, com prazos mais curtos. Alguns poucos compraram lotes do patrimônio ou receberam doações de terras ao redor da capela.

O valor a ser pago anualmente a Igreja pelos foros era a garantia de manutenção da capela. Este valor era proporcional somente ao tamanho da frente dos lotes. Com isso, a testada dos mesmos era mais estreita, enquanto tendiam a serem profundos longitudinalmente. Com essa configuração, os quarteirões iam se fechando, extensos e perpendiculares ao adro.

A benefício de muitos
Por tornarem possível a existência e manutenção do novo templo, através da doação do patrimônio, Manoel da Fonseca e sua família obtinham alguns privilégios junto a Igreja local. Dentre os benefícios estavam: acentos em lugar privilegiado da capela, missas por suas almas após o falecimento, dentre outros.

Além dos privilégios dados pela Igreja, à valorização das terras limítrofes ao patrimônio também eram benefícios visados pelos doadores e demais proprietários do chão vizinho ao patrimônio. Através de arrendamentos e de vendas de lotes, aos que não queriam se estabelecer nas terras doadas, Manoel da Fonseca e os demais obtinha bons lucros negociando suas terras, antes de baixo ou nenhum valor capital.

Havia também um agudo senso de oportunidade dentre os homens de poder da região,  que teriam ao seu benefício, com o desenvolvimento do povoado, a possibilidade de assistirem seus poderes políticos serem ampliados na mesma proporção do crescimento local. Nesse âmbito, o travamento de disputas por cabeça de moradores, principalmente os que para cá se mudavam, certamente era causa de início de alianças ou inimizades.

Outro elemento visado por todos os moradores das cercanias era o desenvolvimento do comércio local. Este trazia a facilidade de agora poder deslocar a produção para o novo povoado, ao invés de transpor caminhos difíceis e inóspitos para negociar os viveres que produziam, os animais que criavam, a madeira que extraíam.

O crescimento do povoado
Assim o pequeno povoado do Ribeirão do Vintém foi se formando e crescendo. Espontaneamente, ao redor da pequena capela, foi surgindo uma vida social entre vizinhos e novas amizades foram surgindo. A frente do adro, um largo tornava-se local de encontros obrigatórios, onde a socialização ocorria entre procissões e festejos à padroeira.

Com o aumento do número de edificações, mesmo que esparsas, dentro e fora das terras do patrimônio, uma estrutura de arruamento foi se traçando, levando o povoado a ter uma aparência mais organizada, já podendo ser denominado de arraial.

Como arraial, o lugarejo tornava-se local oportuno para pessoas de outras regiões se instalarem. Mestres de ofícios diversos, como sapateiros e carpinteiros, estabeleceram-se ali. Comerciantes e negociantes eram acolhidos e também assentavam residência. O arraial tornava-se ponto de parada obrigatória para caixeiros e mascates.

A única exigência para um indivíduo fixar residência no novo povoado, além de guardar as leis forais, era que este obedecesse à organização social vigente, que acabava conduzindo-o à participação nas atividades da capela. Reforçava essa condição o fato da Igreja, no papel do Estado, ser a única responsável pelo registro e emissão de certidões de nascimento, casamento e óbito.  Deste modo, a população era conduzida em direção a uma formação católica, e esta devoção acabava influenciando diretamente a todos os moradores, fechando assim um ciclo, do qual todo o arraial participava.

A sociabilidade exigida pelas atividades junto a capela ratificava o ciclo acima, impulsionando a coletividade local a se modelar, com mais intensidade. Ademais, o templo promovia o senso de corpo dos fiéis, assim como consagrava as posições sociais de seus frequentadores, já que, quanto mais alta a posição político-social do fiel, mais próximo do altar este se sentava.

Censos e mapa de população
Com a ajuda de censos e mapa de população das primeiras décadas do Império, podemos esboçar o desenvolvimento populacional da região do Ribeirão do Vintém, até sua constituição como arraial de Santa Rita.

O primeiro censo em que aparece a localidade de Santa Rita, é o censo de Campanha, de 1828, o qual levantou o número de moradores da zona rural e do povoado. Foram recenseadas 973 almas (moradores), sendo 521 livres e 452 cativos.

Censo Santa de Rita, de 1828

Censo de Santa de Rita, de 1828

No censo de Santa Catarina (Natércia), de 1829, onde consta o nome de Ribeirão do Vintém, o qual levantou somente os moradores do arraial, foram recenseados 63 fogos (casas habitadas) com 362 almas.

Em 1830-31, o censo da zona rural e do arraial de Santa Rita nos mostra 1620 almas, sendo 1156 almas livres e 494 cativos.

Em mapa de população de 1831-32, o arraial de Santa Rita já contava com 243 fogos, onde residiam 1813 almas, sendo 1329 moradores livres e 484 cativos. Além dos declarados como lavradores (fazendeiros e sitiantes) e lavoura (trabalhadores rurais), a localidade contava com: 13 negociantes diversos, 8 carpinteiros, 7 jornaleiros, 4 tropeiros, 3 sapateiros, 2 pescadores, além de 1 telheiro, 1 alfaiate e uma costureira.

Já em 1835, a soma dos moradores da zona rural e do arraial totalizava 3664 almas, destes 2765 eram livres e 899 cativos.

Fontes:
– Corografia histórica da Província de Minas Gerais – MATOS, Raimundo José da Cunha, Belo Horizonte, 1981, Volume 1;
– Revista do Arquivo Publico Mineiro, 1897, Vol 2 – 18-29;
– Arquivo Publico Mineiro, MP CX10 DOC 02, DOC 05 e DOC 13.

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